quinta-feira, 5 de março de 2009

De 2006 e atual

Não é o frio que dá quando passo pela orla:
na barriga, na pele e no peito
Não são as lembranças de outrora
Nem mesmo o medo:
de morrer sozinha, ser comum ou infeliz
Até o de virar memória e sorriso pequeno
no rosto de quem amei, já não temo mais
E tudo o que acontece e vive e pulsa,
eu já nem me importo e não olho para trás
Mas é que a tristeza que dá quando passo pela orla:
no pescoço, no coração e no ouvido
É dor e prazer
E eu tenho medo, sim, de me perder nas lembranças
buscando um pouco de felicidade
E abandonar o viver porque a maior dor desse mundo
Ela é minha e ela é só

Sobre a vida (também)

Dizem que a vida é dividida em momentos de felicidade e tristeza, de prazer e dor, de sentimentos e sensações antagônicos. Para mim, ela não apresenta toda essa heterogeneidade. Muito pelo contrário: de forma ilustrativa, é mais como uma parede de cor insossa (bege, talvez), sem quadros para adorná-la e tampouco rachaduras que a tornem feia. É certo que existem alguns poucos momentos na vida em que a vida (e aqui falo sobre a imagem que existe no subconsciente coletivo do que é viver, coisa e tal) realmente acontece e isso não pode ser ignorado, mas o que predomina no espaço de tempo que vai do nascimento à morte de uma pessoa é bege e apático.
Tomo como exemplo a minha própria vida, deixando claro que tenho ciência de que talvez toda essa análise se aplique apenas à ela. É muito triste o fato de que se me pedissem para citar ao menos dez momentos em que eu realmente vivi, em que verdadeiramente senti algo além de uma semi-tristeza débil, eu não poderia. Não saberia e provavelmente até entraria em algum tipo de estado estático, pois não seria capaz nem mesmo de inventar ocasiões que fizessem minha existência não ser digna de piedade, o que é um tanto embaraçoso.
Mas será que falo só por mim quando digo que a vida é maçante, que os eventos importantes e sensações reais são poucos e que os caminhos que percorremos (de paisagens tão parecidas) servem apenas para levar a todos nós ao mesmo e inevitável destino que é a morte? Observando as pessoas (que são únicas, sim, mas extremamente semelhantes nas suas diferenças) chego à uma conclusão: tudo isso é sabido e existe alguma espécie de pacto, de acordo secreto entre toda a humanidade que visa esconder o fato de que a vida não é essa montanha-russa de acontecimentos de que tanto falam e sim um pequeno carrossel, chato e enjoativo, dando voltas no mesmo lugar.
Finalmente, a questão mais importante: seria possível não seguir as regras de segurança do parque e, sei lá, dar uns pulos entre os cavalinhos do carrossel?